Jovem demais para morrer

JOVEM DEMAIS PARA MORRER

 

Eu lembro muito bem aquela cena de dor pela qual passou um amigo meu, quando perdeu um filho na plenitude dos 17 anos, num desastre automobilístico. Sobre o corpo jovem do seu filho, ele, que era um homem austero, chorava, desamparado, sem entender o sentido da vida naquele momento em que seu coração sangrava uma agonia indescritível. Ao me ver, perguntou-me, com a voz sufocada no desespero: “Meu amigo, tu, que és poeta, qual a palavra certa para expressar a minha dor?” Ao que lhe respondi, impotente e comovido: “Mesmo que eu falasse a linguagem dos anjos, ainda assim, meu caro, eu não teria palavras para descrever o teu sofrimento.” E depois mergulhamos num silêncio de chumbo, onde não há respostas para a tragédia que nos dilacera, quando estamos cheios de planos para celebrar a vida.

Lembro daquela cena, evocando o sorriso aberto do jovem ainda José Aniesse Haickel, cujo brilho se apagou repentinamente, como a luz de um cometa, que brilha um só instante, e depois misteriosamente desaparece na escuridão insondável dos absurdos existenciais. Lembro, porque, irmanado à dor dos que sentem sua abrupta partida, não consigo verbalizar em sua elegíaca dimensão a já saudade de quem se foi, mas parece estar vivo ainda em nossas vidas.

Eu sou apenas um entre tantos amigos, que se deixaram cativar pela aura de alegria que o “Zé” irradiava à sua volta. Ele era dessas raras pessoas que não guardam mágoas, que mesmo contrariadas, nunca deixam de estender a mão ao semelhante, inclusive àqueles que, por acaso, negaram-lhe esse gesto de amizade. Era um ser dionisíaco, a celebrar a existência

com o bom senso de humor, com a taça do otimismo sempre cheia de humanismo, brindando o milagre da vida.

Pelo fluir de beleza humana, espiritual e solidária, que a simplicidade de seus gestos nos transmitia; diante do seu encantamento precoce, sinto-me, assim como seus amigos, sem as palavras certas para expressar uma tristeza que nos invade a alma quando perdemos uma referência positiva da vida.

O Zé era jovem demais para morrer, alegre demais para partir, tinha amigos demais para dizer adeus antes do 6º ato. Por isso ficará em nossas lembranças, em nós que sabíamos e sabemos da grande figura humana que ele foi; ficará não como um cometa, mas como o protagonista de uma festa de sorrisos cuja melodia permanecerá indelével em nossas mentes.

E já que me faltam as palavras dos anjos para dizer adeus ao cometa intenso de luz que foi o fazedor de amigos José Aniesse, peço emprestados os versos do poeta Álvares de Azevedo que, quando partiu, também era jovem demais para morrer:

Descansem a meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Alex Brasil